Aprender trading do zero:
o percurso em seis passos, sem cursos
Quase toda a gente começa pelo sítio errado: abre uma conta, mete dinheiro, compra um curso e aprende a ler gráficos com o seu próprio dinheiro à frente. É a ordem mais cara possível.
Esta é a ordem que faz sentido. Não é rápida e não tem atalhos, mas cada passo apoia-se no anterior e nenhum se pode saltar sem o pagar depois.
Passo 1. Perceber o que estás a comprar
Antes de olhar para um gráfico, saber o que está por trás do preço. Parece teoria e não é: muda quanto podes perder.
Futuros
Compras um contrato com um valor por ponto fixo. No micro do Nasdaq, cada ponto são 2 dólares. É um mercado centralizado: o preço que vês é o mesmo para toda a gente e a tua ordem vai para uma câmara de compensação, não para a tua corretora. Aqui está o NQ explicado.
CFDs
Não compras nada: assinas um contrato por diferenças com a tua corretora, que é a tua contraparte. Funcionam, estão regulados na Europa e são o produto com que muita gente começa, mas convém saber que quem ganha quando perdes é a casa. As corretoras europeias são obrigadas a publicar a percentagem de contas de investidores particulares que perdem dinheiro: costuma estar entre 70 e 85 por cento.
Ações
Compras um pedaço de uma empresa. Sem alavancagem não te podem expulsar da posição, por isso o risco de ruína é muito menor e o ritmo, muito mais lento.
Para aprender intradiário, os futuros micro são o caminho habitual: liquidez, custo conhecido e sem conflito de interesses com a corretora.
Passo 2. Ler o gráfico, e pouco mais
Velas, volume, máximos e mínimos anteriores. Isso é 90% do que vais usar no primeiro ano.
Os indicadores vêm depois e a maioria não acrescenta nada que o preço não diga já: uma média móvel é o preço de há vinte velas, um RSI é o preço comparado consigo próprio. Não são maus, mas se não sabes ler a vela, o indicador só te dá mais uma razão para entrares onde não deves.
O mínimo que é preciso dominar
- O que diz uma vela pela relação entre corpo e sombras.
- O que é um nível e porque é que os toques importam. Explicado aqui.
- Como se vê uma caça aos stops, que é o que mais dinheiro tira a um principiante.
- Que o volume diz quanta gente estava lá, não para onde vai.
Duas semanas a olhar para gráficos com essa lista na cabeça rendem mais do que dois meses a colecionar indicadores.
Passo 3. Aprender a perder pouco
Este passo não se pode saltar e é o que quase todos saltam, porque é o aborrecido.
Antes de pensar onde entrar é preciso ter decidido quanto se perde se correr mal e quantas vezes seguidas pode correr mal sem que a conta acabe. A aritmética é implacável: se perderes 50% da conta, precisas de ganhar 100% para voltar ao princípio.
E as más fases chegam. Se acertas metade das vezes, encadear dez falhas não é má sorte, é estatística: com quinhentas operações por ano aparece de certeza. A pergunta não é como a evitar, é o que sobra da tua conta quando acontecer.
O cálculo completo está aqui: quanto arriscar, como se tira o tamanho e as três regras que sobrevivem a tudo.
Passo 4. Repetir sob pressão, sem dinheiro
Aqui entra o simulador ou o torneio. Não é para aprender a ganhar: é para acumular repetições com consequência.
O que se treina neste passo é concreto e mensurável:
- Quantas vezes viste uma caça aos stops e aguentaste.
- Quantas vezes fechaste tarde.
- Quantas vezes entraste sem motivo porque estavas há dez minutos sem fazer nada.
- Quantas vezes mexeste o stop contra ti.
Um torneio de três minutos dá-te à volta de dez decisões; quatro rondas, quarenta. Uma sessão de demo aberta toda a tarde dá-te seis e nenhuma importa. É toda essa a diferença, e não tem nada a ver com o talento.
Atenção ao simulador que escolheres: se não cobra spread e comissão está a ensinar-te a operar de uma forma que a sério perde.
Passo 5. Dinheiro real, mas ridículo
O salto para real muda o comportamento mesmo que a quantia seja pequena. Por isso começa-se com a quantidade mais pequena que o instrumento permita e opera-se assim durante semanas, não dias.
O objetivo desta fase não é ganhar. É verificar se fazes o mesmo que fazias sem dinheiro. Normalmente não: cortas os ganhos mais cedo, aguentas as perdas mais tempo e sobes o tamanho depois de acertar sem te dares conta.
Como saber se estás pronto
Três perguntas sobre as tuas últimas cinquenta operações simuladas. Quantas vezes mexeste o stop contra ti, quantas entraste sem que a tua condição se cumprisse, quantas dobraste o tamanho depois de perder. Se alguma resposta não for zero, a sério vai ser pior.
Passo 6. Subir tamanho por estatística, não por uma boa fase
Quando tiveres cem operações apontadas já tens alguma coisa para olhar: quantas ganhas, quanto ganhas quando ganhas, quanto perdes quando perdes e qual é a tua pior fase.
É aí que se decide se se sobe o tamanho, não ao fim de três dias bons. E quando se sobe, um degrau: de um para dois contratos, não de um para cinco.
O diário mínimo
Uma linha por operação: data, o que viste, o que fizeste, onde estava o stop, como acabou e como estavas tu. Ao fim de cem linhas os padrões saltam à vista, e quase nunca são os que pensavas. Sem diário não há estatística, e sem estatística só tens uma sensação.
O que não faz falta no início
É quase mais útil do que a lista do que faz falta, porque é aqui que se vai o dinheiro e o tempo.
| O que te vão vender | Quando faz falta | O que fazer entretanto |
|---|---|---|
| Um curso de mil euros | Quase nunca | O que os bons ensinam está em livros de trinta |
| Seis monitores | Nunca para começar | Com um chega. O monitor não opera por ti |
| Um bot ou uma IA | Quando sabes operar à mão | Se não sabes o que automatizar, automatizas o erro |
| Uma prop firm | Depois de cem operações | Não é o que parece |
| Sinais pagos | Nunca | Se funcionassem, ninguém os vendia |
| Dados de nível 2 | Mais à frente | Com a vela e o volume tens de sobra no primeiro ano |
Quanto custa começar a sério
Com os números à frente, começar em futuros micro custa menos do que as pessoas pensam e mais do que os anúncios dizem.
- Conta: muitas corretoras de futuros abrem a partir de umas centenas de dólares. Com menos de 1.000 a margem de erro é demasiado estreita.
- Dados de mercado: uns poucos euros por mês para o nível básico. O intradiário sem dados em tempo real não se pode fazer.
- Plataforma: há gratuitas e boas. Não pagues por uma até saberes do que precisas.
- Custos por operação: à volta de 1,50 dólares entre spread e comissão no micro do Nasdaq. Vinte operações por dia são 30 dólares diários.
Esse último ponto é o que mais gente ignora e o que decide se uma forma de operar faz sentido ou não. Se o teu ganho médio são três ticks, trabalhas de graça para a corretora.
E um aviso honesto que convém ter antes de começar: no estudo de Chague e De-Losso sobre traders brasileiros de futuros, dos que aguentaram mais de 300 dias a operar, 97% perdeu dinheiro. Vale a pena aprender, mas o prazo realista não é um mês e o resultado não está garantido.
Perguntas frequentes
Quanto dinheiro é preciso para começar em trading?
Para futuros micro, com menos de 1.000 dólares a margem de erro é muito estreita: dois erros seguidos e ficas sem margem. Mais importante do que o valor é que seja dinheiro que possas perder por inteiro sem que a tua vida mude.
É preciso um curso para aprender a operar?
Não. O que os cursos bons ensinam está em livros de trinta euros e em páginas como esta. O que nenhum curso dá são as repetições, e essas tens de as fazer tu.
Quanto tempo se demora a aprender?
Pensa em operações, não em meses: à volta de cem com a mesma regra para teres uma estatística, e várias centenas para que a rotina seja automática. Aqui está o cálculo por formato.
É melhor começar com ações, CFDs ou futuros?
Para intradiário, futuros micro: mercado centralizado, custo conhecido e sem conflito de interesses com a tua corretora. Os CFDs são mais acessíveis mas a tua contraparte é a casa. As ações sem alavancagem são o mais lento e o menos perigoso.
Pode aprender-se a operar com um emprego a tempo inteiro?
Sim, se escolheres uma faixa horária fixa e a respeitares. A abertura americana é às 14:30 em Portugal continental, o que complica as manhãs mas deixa as tardes. Vinte minutos por dia, todos os dias, rendem mais do que quatro horas ao sábado.
Qual é o erro número um de quem começa?
Operar tamanho grande para que se note. Todo o resto se arranja com tempo; isso tira-te do jogo antes de o tempo o poder arranjar.
Fontes
- Chague, De-Losso e Giovannetti, Day Trading for a Living? (2020).
- ESMA, restrições aos CFDs para investidores particulares: origem do aviso de contas em perdas.
- CME Group, Micro E-mini Nasdaq-100: valor do ponto e garantias.
- CMVM, alertas ao investidor, e CVM no Brasil, alertas ao mercado: entidades não autorizadas e esquemas financeiros.
- Ericsson, Krampe e Tesch-Romer, The Role of Deliberate Practice (1993).
O passo 4 começa em três minutos
Tudo o que vem antes lê-se numa tarde. O que custa são as repetições, e essas fazem-se a jogar.
Jogar um torneio